segunda-feira, março 30, 2009

ARTIGO DE FRANCISCO ANDRÉ (membro da Finos) - sobre o cancelamento da apresentações de Sagrada Folia nos dias 21 e 22 de março de 2009

"Quando as Máquinas param" ou "O espetaculo tem que continuar"

Março é um mês especial na vida de alguns artistas, pois neste período se comemoram o Dia Internacional do Teatro e o Dia Nacional do Circo. Digo “especial” não apenas por ser uma efeméride comemorativa, mas também por ser mais um momento oportuno para podermos nos deleitar com festejos e reflexões sobre esses ofícios. Não obstante a tudo isso, no último dia 21 de março, eu e meu grupo de Teatro vivenciamos um episódio, no mínimo intrigante.

È sabido por todos que conhecem ou acompanham o trabalho do grupo Finos Trapos que estamos em cartaz com o Fino Repertório no Teatro Xisto Bahia participando da programação oficial do “Marco do Teatro e do Circo”, um dos eventos onde artistas baianos e soteropolitanos celebram as datas aqui citadas. Organizado pela Fundação Cultural do estado em parceria com os grupos teatrais das cidades participantes, desde a sua primeira edição oficial (2008) tornou-se um dos momentos de maior efervescência cultural na capital e no interior. Durante todo o mês teatros, ruas e praças das cidades abrigam inúmeros espetáculos, oficinas e palestras demonstrando o potencial artístico da região e comemorando com muito trabalho essa passagem. Inúmeros grupos que durante o resto do ano realizam seus trabalhos isoladamente nos recantos, guetos e periferias das cidades, emergindo apenas de vez em quando aos olhos da mídia e da maioria da população, levantam pouso rumo a uma pequena, porém importante valorização do seu labor. Alguns até se beneficiam dessa divulgação em massa para conseguir tornar mais rentável suas temporadas, já que divulgação é uma das etapas mais caras e importantes na construção de um espetáculo.

Por isso: “Viva Teatro, Viva o Circo”!... Uma pausa para reflexão.

Enquanto realizávamos o ensaio geral do nosso espetáculo SAGRADA FOLIA, poucas horas antes de adentrarmos o palco para organizar o cenário e executarmos os últimos detalhes da apresentação que seria realizada às 20 horas, a diretora do teatro Xisto Bahia nos foi porta-voz de uma noticia muito ruim: Todos os espetáculos daquele fim de semana deveriam ser suspensos como medida de segurança devido a problemas técnicos daquela casa de espetáculos. O ar condicionado, responsável também para refrigerar o equipamento de luz do teatro, havia se danificado minutos antes da apresentação do espetáculo que antecederia o nosso. Permitir a realização do espetáculo, dentro daquelas condições, além de desconforto colocaria em risco a platéia e os profissionais ali presentes, segundo o parecer dos técnicos do teatro.

Durante alguns instantes todos do grupo ficamos estáticos, boquiabertos, atônitos. Afinal era a primeira vez que o Grupo Finos Trapos deixaria de apresentar um de seus espetáculos. Depois de algum tempo, procuramos junto à diretora e os técnicos encontrar um consenso sobre qual solução seria mais viável. Por fim, concordamos que essa seria a melhor opção realmente. Nenhuma pessoa sensata, por mais que seja aficionado pelo que faz, poderia se opor a uma medida de segurança quando existe risco eminente de um incêndio ou acidente.

O que me deixou perplexo e indignado nesse episódio fatídico não foi a solução encontrada para o problema, pois suspender o espetáculo não era medida desejada por nenhuma das partes envolvidas na questão, mas a mais sensata. O que me deixou insatisfeito e angustiado foi o próprio problema: o aparente descaso com a infra-estrutura dos equipamentos públicos. Fosse a um outro período qualquer, creio que a revolta de todos os artistas envolvidos naquela situação nem seria tanta. Mas isso ocorrer em um evento em que somos convidados a celebrar o nosso oficio, e o procuramos fazer da melhor maneira possível, isso é humilhante.

De quem seria a responsabilidade pela manutenção do teatro? Da empresa prestadora de serviços? Da Fundação Cultural que administra o espaço? Do Estado?

Ora, temos que admitir: acidentes acontecem. E se eles acontecem, poderia acontecer em qualquer momento, com qualquer outra pessoa, seja artista ou não. Mas já que estamos falando de “dia do teatro, dia do circo” enquanto artista e cidadão não posso me curvar diante de uma justificativa que poderia até resolver esse problema isolado se este não estivesse conectado com inúmeros outros que nos deparamos diversas vezes em nosso percurso formativo e trajetória profissional: preconceito, marginalização; escassez de financiamento privado ou apoio institucional; dependência de editais públicos; burocracia e ineficácia das políticas públicas de incentivo à cultura e a exigência de inúmeras contrapartidas sociais para o financiamento; dupla jornada de trabalho, conciliação com uma segunda profissão ou fuga para outras áreas como saída para a falta de estabilidade financeira; concorrência desleal com televisão e o cinema; pouca valorização do teatro enquanto produto turístico economicamente rentável; pouca valorização da Arte enquanto currículo especifico na educação básica e enquanto conhecimento cientifico; dentre tantos outros...

Nós artistas de Teatro há aproximadamente 2.408 (dois mil quatrocentos e oito) anos, (isso só considerando apenas a tradição comprovada do Teatro OCIDENTAL) somos chamados à labuta, porque “O espetáculo não pode parar”. Mas como realizar essa tarefa, considerada por muitos de nós um sacerdócio, “quando as máquinas param”? Como? Se além de ar condicionado para refrigerar equipamentos dependemos de uma outra máquina muito mais complexa: a máquina institucional, vulgo Estado ou qualquer outro mecenas? Até quando teremos que migrar para outros grandes centros,senão para outras áreas, para pleitear trabalho dignamente remunerado e cumprir esse “mandamento teatral”?

O episódio ocorrido no Xisto com a Finos Trapos serve apenas de alerta para continuarmos lutando pelos nossos direitos e espaço. Em nosso cenário atual, há muitas outras coisas além de um “ar condicionado danificado” para se refletir. Recentemente, por exemplo, foi anunciado que esse ano será a ultima edição do PRÊMIO BRASKEM DE TEATRO, único evento de grande porte que coroava anualmente os profissionais de destaque nas Artes Cênicas da capital baiana. Na II Conferência Estadual de Cultura realizada em Feira de Santana em 2007, As Artes Cênicas, mais especificamente o Teatro, foram eleitas PRIMEIRA PRIORIDADE dos territórios de Identidade cultural, o que possibilita ao Estado Constituído perceber a importância do teatro para nossa cultura, respaldando ainda mais as nossas reivindicações...

Depois de tantas questões efervescentes e polêmicas, devo esclarecer que não quero e nem devo depor contra ou apontar deméritos de eventos como o “Marco do Teatro e Circo” e de algumas iniciativas da Fundação Cultural e do próprio teatro Xisto Bahia. Ao contrário, são em espaços como esses que nos fortalecemos enquanto artistas e classe trabalhadora, demonstrando o potencial de nossas produções e de como conseguimos aliar trabalho e sonho em um mesmo espaço-tempo. Juntos, temos colhido diversas conquistas. O que aumenta ainda mais a nossa fome e sede por mais mudanças e melhorias a fim de criar um verdadeiro mercado de trabalho de Artes Cênicas na Bahia.

Francisco André

Ator, professor de Teatro, Arte/educador, Licenciado em Teatro pela Universidade Federal da Bahia e membro do grupo de Teatro Finos Trapos.

visite também: www.finofrancisco.blogspot.com

Um comentário:

  1. PARABENS CHICO! EU COMO FÃ INCONDICIONAL DO GRUPO FINOS TRAPOS, FIQUEI DECEPCIONADA COM ESTE ACONTECIMENTO, FIQUEI IMAGINANDO COMO VOCES FICARAM VULNERAVEL...... SEM ALTERNATIVAS.. FOI UM DESRESPEITO COM O TRABALHO MARAVILHOSO QUE VOCES EXECUTAM... FICA AQUI A MINHA INDGNAÇÃO COM ESTE DESCASO, E LAMENTANDO EM TER PERDIDO MAIS UMA APRESENTAÇÃO DESTE BELISSIMO TRABALHO. UM GRANDE ABRAÇO A TODOS.

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