segunda-feira, agosto 03, 2015

“O TEATRO É A CASA DO ATOR ”- NECESSITAMOS MUITO MAIS DO QUE UMA “SALA DE ESTAR”
Por Frank Magalhães – Membro do Grupo de Teatro Finos Trapos
magalhaes_2@yahoo.com.br
Sim, o teatro é um lugar sagrado para o ator. É nesse espaço de experiências que as possibilidades de trocas se manifestam em muitos aspectos: a escolha de uma ideia através da obra encenada, dos seus personagens e de infindáveis proporções que não damos conta. Neste contexto o jogo é de caráter subjetivo e complexo, o ator que vivencia nessa “sala de estar” que é palco de trocas diante de uma plateia.
Mas, essa “casa do ator”, durante séculos passou por muitas mudanças e consequentemente, seus moradores estão cada vez mais imbuídos em extrapolar essas experiências para além da “sala de estar”. Não quero aqui fazer uma análise histórica das mudanças do edifício teatral, pois não daria conta. Mas, sabe-se que variados aspectos políticos e culturais provocaram muitas transformações na caixa cênica. Os mais variados estilos passam a ser locais alternativos para o uso cênico, atendendo às necessidades e transformações de uma nova realidade. Um dos possíveis aspectos para essas mudanças é a atuação de artistas constituídos como Grupos, detalhe este que acredito que diferencia a maneira de produzir e que corrobora fortemente para alteração de um pensamento. A necessidade de se apossar de uma casa com todas as suas potencialidades é algo que faz parte dos sonhos de muitos coletivos. Necessitamos muito mais do que uma “sala de estar”. Queremos ultrapassar os limites dessa construção simbólica da “casa do ator”.   
A complexidade da questão do uso de espaços públicos muitas vezes se torna um entrave quanto ao seu destino. Os imóveis ficam à mercê da especulação imobiliária, uma realidade que divide responsabilidades com Órgãos que pouco dialogam com a dinâmica das cidades, deixando que o abandono e o descaso falem mais alto ao longo dos anos, o que acaba culminando em alguns desfechos desastrosos que chegam até a ceifar vidas. Em nossa cidade, Salvador (BA), a cada ano, principalmente em épocas de chuvas frequentes, casarões e outros imóveis em ruínas, fazem suas vítimas.         
Algumas experiências pelo Brasil afora podem se tornar bons exemplos a serem perseguidos, como é o caso da Casa da Ribeira - Espaço Cultural idealizado pelo Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare, situada na cidade de Natal (RN). O projeto de ocupação do casarão é gerido pelo Grupo que, durante quase 15 anos de ocupação vem possibilitando o fortalecimento de ações que agreguem a comunidade do entorno.  Apresentações de espetáculos, oficinas de artes, acesso ao acervo bibliográfico, entre outras ações que dão um lastro para a existência dos Clowns. A execução das ações recria maneiras diferenciadas de requalificação de um bem patrimonial. O casarão que abriga a Sede dos Clowns de Shakespeare faz parte de uma área tombada pelo IPHAN como patrimônio da humanidade.  
Em Salvador, um exemplo de resistência é o Bando de Teatro Olodum que completa em 2015, vinte e cinco anos de trabalho. Sediado no Teatro Vila Velha há vinte anos, o Bando durante todos esses anos de trabalho continuado, vem fortalecendo dentre outros aspectos, a identidade do povo negro. O Vila também possibilitou a efervescência de ideias e o surgimento de outros coletivos bastante diversificados, inclusive. Amalgamados a esse complexo cultural sugiram os Grupos VilaVox e a Outra Companhia de Teatro, que hoje se multiplicam em sedes próprias possibilitando importantes ações de formação artística, intercâmbios e melhoramentos em seus arredores.
Os grupos que hoje desenvolvem suas atividades em suas sedes próprias, o fazem devido a Projetos aprovados em Editais Públicos e também através do apoio direto de empresas. O fato é que a proporção de trabalhos desses coletivos se multiplicou, até porque a sede é o local que possibilita inserir no cotidiano, ações artísticas e de produção dando melhor estrutura e sustentabilidade.  O envolvimento dos membros dos grupos nesta rotina, muitas vezes possibilita o exercício de outras frentes, seu campo de atuação então se amplia com o compromisso que não finaliza só no palco. O dia a dia mostra outros campos e, conseqüentemente leva cada integrante a se posicionar. Essa é uma vertente bastante encontrada na forma de atuação de um grupo. Pelo menos de alguns que acompanho mais de perto.  
A gestão conduzida por grupos que representam a sociedade civil, interfere diretamente e de maneira positiva na comunidade em que estão inseridos.  Ainda que a busca por um lugar que chamamos de sede esteja distante de nossa realidade, acreditamos que essa questão deve ser “pauta urgente” nas diversas instâncias governamentais, esse diálogo é indispensável para criar meios estruturais na criação de uma política pública que busque dialogar com questões contemporâneas.

                                

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